O nascimento do romance na Tailândia:
“auto-colonização” e resistência (1843-1915)
Durante
aproximadamente seiscentos anos, a poesia dominou a produção literária do Sião,
época em que foram compostos épicos grandiosos como Khun Chang Khun Phaen
e Phra Aphai Mani. A prosa era destinada apenas aos textos religiosos,
administrativos e cerimoniais, o que deixava o entretenimento e a produção
artística literária inteiramente nas mãos dos poetas. Não deixa de ser uma
razoável surpresa, portanto, que a prosa ficcional tenha passado a dominar de
forma tão acentuada a produção literária tailandesa a partir do século XX,
relegando à poesia épica um papel de prestígio sobretudo histórico. Essa
radical transformação não foi uma mera renovação estética ou estilística. Ela
reflete, mais do que tudo, um esforço dos tailandeses de se inserirem na esfera
de influência ocidental, sem, todavia, perderem o próprio protagonismo durante
esse processo. Assim sendo, a introdução e o desenvolvimento da prosa ficcional
romântica no antigo Sião apresentam tensões que reverberam as peculiaridades da
empreitada colonial europeia na Tailândia, uma vez que o país foi o único do
sudeste da Ásia a não ser colonizado, mas foi obrigado a se “auto-colonizar”
para manter sua soberania [HARRISON, JACKSON, 2010; THAK, 2009, pp.458-461].
Durante
o século XIX, particularmente a partir do reinado do rei Chulalongkorn (1868-1910),
o Sião passou por um processo de intensas reformas institucionais,
educacionais, culturais, políticas e econômicas com o intuito de não apenas
modernizar o país como também de evitar que a independência do reino fosse
ameaçada por Grã-Bretanha e França. Dessa forma, o governo siamês procurou
imitar os europeus em todos os aspectos possíveis, o que incluía um projeto de
universalização da educação. Se, no passado, apenas uma pequena fração muito
elitizada da sociedade poderia aprender a ler e a escrever, o país passaria a
incentivar a frequência escolar para públicos mais amplos. A primeira
universidade seria implementada em 1916, e a promulgação de um ato em 1921
prometia educação básica para crianças [WYATT, 1994, pp.267-284].
Todas
essas mudanças miravam o mesmo alvo: o estabelecimento de uma massa
trabalhadora assalariada com níveis educacionais elevados o suficiente para
servirem a um Estado moderno. Como parte desse processo de criação de um “novo
indivíduo” havia a preocupação em estabelecer um público leitor apto a
compreender o que estava se passando ao redor do reino e do mundo [WASANA,
2019, pp.12-18]. Um dos meios utilizados pelas autoridades siamesas e pela
elite local na busca por esse objetivo foi o jornalismo. Através das páginas de
jornais e revistas, um novo público leitor será formado e, junto dele, será
desenvolvida também a prosa ficcional. Primeiro o conto, na segunda metade do
século XIX; e depois o romance, já no começo do século XX.
A
imprensa e o desenvolvimento do conto
Modernas
técnicas de impressão e, através delas, a tradição de publicar periódicos foram
introduzidas no Sião no século 19 pelos missionários estrangeiros J. T. Jones,
Robinson, e D. B. Bradley [MATTANI, 1988, pp.7-9]. O objetivo desses pioneiros
era converter os siameses ao cristianismo através da impressão de Bíblias e
literatura de catequese. Eles não conseguiram muitos adeptos, mas as máquinas
de impressão que apresentaram aos locais foram um legado duradouro, não apenas
por causa da maior facilidade de impressão em si, mas pelo desenvolvimento do
jornalismo, impulsionado por vários jornais editados por Bradley a partir de
1843 (WIBHA, 1975, p.30).
Inspirados
pelas publicações dos farangs (ocidentais), os tailandeses passam a
editar seus próprios periódicos. O primeiro foi a Gazeta Real (1857),
criada para informar a população sobre decretos reais, ou sobre assuntos de
urgência, como calamidade pública [WIBHA, 1975, p.31]. Não se tratava, portanto, de um periódico
jornalístico ou literário que atendesse aos anseios de fomentar um público
informado como o país precisava. Procurando suprir essa necessidade, um grupo
de nobres liderado pelo príncipe Kasemsansophak lançaria a revista Darunowat
em 1874. O conteúdo publicado era variado, passando por notícias estrangeiras,
política nacional, seção de provérbios e ensinamentos morais, pequenas
biografias e histórias para entretenimento, poesia, o Ramakien (versão
tailandesa do Ramayana indiano) e, claro, os contos. O periódico, que durou
apenas um ano, publicou os primeiros contos jornalísticos siameses. Eram
histórias que retratavam o cotidiano banal (como, por exemplo, um cachorro
roubando doces), mas que poderiam também abordar temas políticos mais
controversos [WIBHA, 1975, p.32].
O
conto “Nithan Patyuban” (Um conto sobre o tempo presente), por exemplo,
chama a atenção por fugir do tema central dos contos com os quais os siameses
estavam habituados. Até então, esse gênero literário era destinado apenas aos
contos budistas (em especial as játacas, histórias de vidas passadas do
Buda) que não eram literatura siamesa propriamente dita, mas sim traduções
feitas a partir do páli. A disseminação da impressão moderna já tinha realizado
um feito inédito, que foi popularizar as játacas em versões impressas, uma vez
que antes elas sobreviviam na tradição oral. Porém, o que temos aqui é um novo
desenvolvimento do gênero conto narrativo no Sião, que se abre para a
possibilidade de abordar temas éticos de modo inteiramente secular, algo
bastante raro para a prosa siamesa de então.
O enredo narra a história de um casal de aristocratas idosos que é
ridicularizado por crianças devido ao seu comportamento antiquado. Apesar de
parecer inofensivo e simplório, o conto é uma crítica ao comportamento de parte
da elite siamesa que se recusava a aceitar as modernizações efetuadas pelo rei
Chulalongkorn. [WIBHA, 1975, pp.32-33].
Do
conto para a tentativa frustrada de romance
Outro
periódico muito importante para o desenvolvimento da prosa ficcional siamesa, e
que foi igualmente concebido por membros da família real, foi o Wachirayan
Wiset (1885-94). Além do lançamento de uma série de contos de inspiração
budista e secular muito influente (Nithan Wachirayan), essa prestigiosa
revista semanal foi responsável pela primeira tentativa de publicação de um
romance genuinamente siamês. [WIBHA, 1975, p.63]
A
abortada iniciativa aconteceu em 1886, quando o príncipe Phichitprichakon
publicou aquela que seria a primeira parte de seu romance, Sanuk Nuk
(Pensamentos divertidos). O empreendimento não pôde seguir em frente porque
provocou indignação do monge abade do Wat Bowonniwet, que se sentiu
profundamente ofendido pelo fato do enredo se passar no seu templo e ainda
contar com quatro personagens monges fidedignamente descritos, que estão
debatendo entre si sobre as suas perspectivas de futuro após deixarem a vida
monástica [WIBHA, 1975, pp.63-64].
O
leitor tailandês não estava acostumado com tramas ficcionais que não apenas se
passavam em cenários reais como também produziam descrições realistas. Houve
confusão entre os leitores sobre a natureza da narrativa do príncipe. Seria um
relato jornalístico real ou uma invenção do autor? A reação da corte e das
autoridades religiosas foi tão escandalosa que o próprio rei teve que se
desculpar com o abade e explicar que o príncipe não estava debochando do
templo, mas sim “imitando o estilo farang” de escrita, que se
caracterizaria pelo realismo, mas cujo objetivo seria o puro entretenimento, e
não reproduzir fatos reais [MATTANI, p.21].
“Plagiando”
o ocidente
Uma
vez que a tentativa de criar um romance local foi frustrada logo depois do
primeiro capítulo, restava a publicação seriada de romances europeus. O
periódico mais relevante nesse sentido foi o Lak Witthaya (1900-03), que
investiu pesadamente na adaptação de modelos culturais britânicos. O
significado do título do periódico é franco: “Plágio”. Os responsáveis pela
publicação eram aristocratas que foram educados na Europa e pretendiam traduzir
ou adaptar a literatura inglesa e popularizá-la entre os novos leitores que
estavam surgindo [BARANG, 1994, p.60]. Em 1902, o Lak Witthaya iria publicar em
dez partes o primeiro romance ocidental completo traduzido em língua
tailandesa: The Vendetta (“A Vingança” em português, Kwam Phayabat
em tailandês), escrito por Marie Corelli. A adaptação seria revolucionária, não
só pelo pioneirismo, mas por introduzir mudanças na língua tailandesa,
simplificando a ortografia e incorporando a pontuação do inglês no tailandês
[THAK, 2009, p.467].
O
tradutor do romance, Phraya Surintharacha (um dos primeiros estudiosos enviados
pela corte siamesa para estudar na Inglaterra), não se limitou a fazer uma
tradução fidedigna, antes acrescentou notas pessoais, explicando porque
determinados costumes siameses, sobretudo aristocráticos, seriam superiores aos
europeus. Ele também substituiu certos elementos ocidentais da história por
outros locais. As frutas europeias da obra original são substituídas por frutas
siamesas, enquanto as “florestas sul-americanas” para onde o herói foge após
sua vingança se tornam “florestas no norte do Sião” [THAK, 2009 pp.467-468]. A
trama de Marie Corelli se passa na Itália, mas o narrador protagonista é inglês
e subestima os italianos. A criatividade do tradutor/adaptador se dá,
sobretudo, porque ao mesclar e/ou equiparar o ponto de vista do narrador inglês
ao ponto de vista tailandês de suas notas, coloca Sião e Inglaterra em pé de
igualdade, relegando à Itália a posição de inferioridade.
Para
a elite siamesa, como o nome Lak Witthaya sugere, “plagiar” os ocidentais não
era motivo de vergonha, nem de inferioridade. Do ponto de vista local, a Europa
apenas estava substituindo a influência cultural outrora exercida por Índia e
China. E, da mesma forma como nenhum tailandês considera que o Ramakien seja
literatura indiana, mas sim um produto genuinamente tailandês, traduzir e/ou
adaptar a literatura europeia não era um ato de subordinação colonial, mas um
feito de reapropriação criativa [THAK, 2009 pp.464-465]. Talvez o fato do Sião
ter mantido independência política e não ser administrado por farangs
“permitisse que a elite tailandesa se enxergasse como moralmente igual ao
ocidente e, portanto, não pudesse haver considerações de inferioridade ou
superioridade entre a literatura tailandesa e a europeia” [THAK, 2009 p.465].
A
adaptação de Kwam Phayabat se tornaria o modelo para adaptações de romances
ocidentais de sucesso no início do século. Esse modelo foi eficiente por ser
capaz de introduzir o romance europeu e suas inovações, ao mesmo tempo em que
equipara os valores da elite siamesa (identificados como valores “nacionais”)
aos melhores feitos da civilização europeia. O modelo foi dominante de 1902 até
o fim dos anos 20, quando o romance nacional cai no gosto popular.
O
primeiro romance
Apesar
do sucesso do modelo de adaptação, parte da elite se incomodava com a
influência do inglês sobre a língua tailandesa. Tal incômodo levou à
promulgação do Estatuto Literário de 1914, que vetava o uso de pontuações do
inglês e instava os escritores a comporem tramas integralmente originais. Tendo em vista o novo decreto, um editor
encomendou ao escritor Khru Liam um livro “sobre qualquer tipo de
história, desde que não seja farang” [THAK, 2009, p.473]. O resultado
foi a primeira prosa extensa escrita por um tailandês, em língua tailandesa e
com personagens tailandeses. O romance, publicado em 1915, foi tradicionalmente
entendido como uma espécie de “resposta” tailandesa e budista ao livro The
Vendetta, de Marie Corelli [BARANG, 1994, p.61]. O título da obra já sugere
essa conexão: Kwam Mai Phayabat (A Não-Vingança). Enquanto o enredo de
Corelli é sobre vingança, Khru Liam escreve sobre perdão, desferindo uma
crítica à elite bangcoquense e à modernidade ocidentalizante preconizada por
ela.
A
trama pode ser resumida da seguinte forma: Nai Jian, o protagonista, é um homem
sem grandes atrativos; não é bonito nem tão bem sucedido profissionalmente,
mesmo tendo estudado três anos na Inglaterra. Por pressão de sua mãe, ele se
casa com uma moça de 22 anos chamada Prung e os dois vão viver na fazenda dos
pais dela. Entretanto, Prung é ambiciosa e não quer residir na zona rural. Ela
convence o marido a se mudarem para Bangkok, onde espera obter os benefícios da
vida moderna. Chegando lá, a mulher é “corrompida pela modernidade” e abandona
Nai Ji para viver uma paixão com um rapaz rico educado na Europa.
Posteriormente, Prung é renegada pelo amante depois de um aborto e pede abrigo
para Nai Ji. O homem a perdoa e a aceita de volta como esposa e mãe. [THAK,
2009, p.467].
O
enredo é, basicamente, uma crítica aos modelos de masculinidade importados do
ocidente, especialmente pelos jovens aristocratas que estudavam na Europa,
conhecidos como Nakrian Nok. O romance descreve os Nakrian Nok como
predadores sexuais bêbados e retrata as mulheres tailandesas como vítimas de um
comportamento estrangeiro que elas não conseguiriam enfrentar por ignorância ou
ingenuidade [THAK, 2009, pp.481-483].
Nai
Ji, em contraste com seus amigos, é um Nakrian Nok que não foi corrompido pela
Inglaterra. Diferente deles, não abusa do álcool e nunca toca nas mulheres sem
o prévio consentimento delas. Ele é sensível, chora copiosamente quando sofre e
demonstra fraqueza em público, chegando a desmaiar na frente de todos quando
descobre a infidelidade da esposa. Essa construção contrasta fortemente com a
imagem tradicional do herói na poesia épica clássica siamesa [OFFICE OF THE
NATIONAL CULTURE COMMISSION, 1987], onde o protagonista masculino não costuma
apresentar fragilidades emocionais.
As
mulheres de Kwam Mai Phayabat, por outro lado, são descritas como mais
propensas a usar a sexualidade como instrumento ou meio para um fim. Ao fazerem
isso, elas contribuiriam para sua própria desgraça, porque acabariam sendo
tratadas como ornamentos a serem adquiridos para “exibição” e para o prazer
sexual desses homens “ocidentalizados” [THAK, 2009, p.485]. Prung, que
representa a mulher tailandesa, parece incapaz de resistir aos efeitos
predatórios da “modernidade”, identificada com o álcool e o sexo. Fica
implícito que o autor credita apenas aos homens a capacidade e a agência
necessárias para rechaçar os valores burgueses importados da Europa. É por esse
motivo, portanto, que o autor dá tamanha ênfase ao comportamento ético
masculino, pois esse seria o lugar de onde a resistência poderia emergir. Segundo Thak, “o romance de Khru Liam é,
portanto, uma acusação à decadência burguesa que deve ser contida ancorando a
sociedade tailandesa no budismo e na santidade da unidade familiar. Os homens
tailandeses podem adquirir força no budismo. As mulheres, por outro lado, devem
confiar na unidade familiar para lhes dar força” [THAK, 2009, p.485].
Kwam
Mai Phayabat foi, possivelmente, um estrondoso fracasso de vendas porque o
público estava acostumado a histórias que reverenciavam o ocidente, mesmo que
fosse um ocidente filtrado pela intervenção “nacionalista” da aristocracia
local. Ao invés de venerar elementos positivos do ocidente e equipará-los às
características da elite tailandesa, como as adaptações/traduções da época
faziam, o autor ousou ao atacar a influência estrangeira tutelada pela elite
[THAK, 2009, pp.486-7]. Uma vez que a ideologia da alta sociedade era
amplamente dominante dentro do sistema absolutista tailandês, o livro não foi
bem aceito pelos leitores. Como se não bastasse, a obra ainda ia de encontro ao
modelo vitoriano moralista emulado pela nobreza tailandesa, pois apesar da
moral budista, sua narrativa era surpreendentemente honesta na descrição da
sexualidade dos personagens [MATTANI, 1988, p.32]. A prova maior do fracasso do
primeiro romance tailandês é que ele foi esquecido a ponto de ficar décadas
“sumido”, sendo reencontrado apenas em 1997 e republicado em 2001 [THAK, 2009,
p.457].
Em
1916, Khru Liam reconhece a “derrota” e, quase como um pedido de desculpas,
publica um romance cujo protagonista é um explorador inglês que está numa
aventura no Egito, reproduzindo numa obra original a receita vitoriana
“nacionalista” patrocinada pela elite que ele tanto censurou no livro anterior.
Entretanto, apesar do fracasso comercial, Kwam Mai Phayabat teve impacto entre
escritores, inclusive entre os autores responsáveis pela consolidação do
romance tailandês no final dos anos 20 [BARANG, 1994, pp.64-67].
Conclusão
A
introdução da impressão moderna e do jornalismo no Sião na década de 1840 serão
responsáveis pela ampliação do hábito de leitura e, consequentemente, pelo
nascimento da prosa ficcional, sendo o romance o último desenvolvimento desse
encadeamento. O processo de
tradução/adaptação de textos ocidentais fez parte de uma estratégia aristocrática
de manipular o espaço por onde a influência ocidental penetraria no Sião. Sendo
um país independente, as autoridades do reino não recebiam instruções diretas
das metrópoles ocidentais sobre como gerenciar suas instituições culturais e
educacionais. Isso deu ao país a vantagem de administrar a ingerência europeia
de um modo único no sudeste asiático. As adaptações/traduções de prosas
europeias tentavam posicionar o Sião, no mínimo, em pé de igualdade com a
Europa, procurando (numa contraofensiva à objetificação colonizadora do saber
europeu) estabelecer para o público leitor emergente, um Outro farang
que fizesse frente ao Outro siamês fabricado pelos europeus.
Entretanto,
a elite tailandesa utiliza esse mesmo mecanismo anticolonial para se reafirmar.
O objetivo da modernização educacional não era criar indivíduos
livre-pensantes, nem cidadãos autônomos. A real finalidade era fabricar súditos
mais bem informados e capacitados para atenderem às necessidades de Estado, mas
que ainda fossem ávidos em obedecer ao status quo. O estudo sobre a ascensão do
romance tailandês desvela, portanto, os traços “auto-coloniais” ou
“semi-coloniais” [Thongchai,
2014] do projeto modernizador da Tailândia, onde a elite se coloca como
salvadora do país (por evitar a colonização), ao mesmo tempo em que procura
impor sua versão de modernidade à nação. A aristocracia deseja prevenir os
europeus de colonizarem o país, mas passa a administrá-lo imitando e exaltando
o mesmo projeto colonial do qual dizem estar salvando os tailandeses.
Nesse
sentido, a elite procurou tutelar a produção literária para restringir o
fascínio pelo farang, ao mesmo tempo em que sua hegemonia era reafirmada
por alusão aos mesmos europeus. O primeiro romance tailandês fracassou
justamente porque condenou tanto o uso aristocrático da cultura europeia quanto
o herói tradicional masculino da poesia clássica que representava essa elite. O
seleto e restrito público leitor dos anos de 1910 (ainda dispondo de limitada
autonomia em relação à ideologia da nobreza) não abraçou as ideias “radicais”
do autor. Tal conjuntura, entretanto, mudaria rapidamente nos anos seguintes,
com a popularização da leitura entre as classes médias, sobretudo após o final
dos anos 20, quando um escritor popular e de origem plebeia como Siburapha
(1906-1974) quebraria a hegemonia aristocrática entre os autores, escrevendo
obras de cunho social e críticas às desigualdades de classe, e tornando-se
depois um dos escritores tailandeses mais influentes do século.
A
consolidação do romance só ocorre nos anos 30, quando a produção nacional
ultrapassa em popularidade a adaptação de livros estrangeiros [SMYTH, 2000,
p.254]. É quando o longo processo iniciado após a publicação do primeiro jornal
em 1843 se completa. O romance tailandês havia nascido e, sobretudo após o fim
do absolutismo em 1932, não estaria mais apenas nas mãos da aristocracia.
Referências
Tiago
Ferreira é doutor em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e
professor do Departamento de Estudos Latino-Americanos da Universidade
Thammasat, na Tailândia.
BARANG,
Marcel. The 20 best novels of Thailand: an anthology. Bangkok: TMC, 1994.
HARRISON, Rachel V.; JACKSON, Peter A.
(orgs.) The Ambiguous Allure of the West: Traces of the Colonial in Thailand.
Hong Kong: Hong Kong University Press, 2010.
Mattani Mojdara Rutnin. Modern Thai literature.
Bangkok: Thammasat University Press, 1988.
OFFICE
OF THE NATIONAL CULTURE COMMISSION. A Study of Thai heroes from Thai classical
literature. Bangkok, 1987.
SMYTH,
David A. “Towards the canonization of the Thai novel” In: The Canon in
Southeast Asian Literatures. Literatures of Burma, Cambodia, Indonesia, Laos,
Malaysia, the Philippines, Thailand and Vietnam. London and New York:
Routledge, 2000.
Thak Chaloemtiarana. Khru Liam's "Khwam mai
phayabat" (1915) and the problematics of Thai modernity. South East Asia
Research, Vol. 17, No. 3, Special Issue: Siamese Modernities and the Colonial
West, November 2009, pp. 457-488.
Thongchai Winichakul.
“Foreword: Decentering Thai Studies” In: HARRISON, Rachel V. Disturbing
conventions: decentering Thai literary cultures. London, New York: Rowman &
Littlefield, 2014.
WASANA
Wongsurawat. The crown & the capitalists: The ethnic Chinese and the
founding of the Thai nation. Bangkok: Silkworm, 2019.
WIBHA
Senanan. The Genesis of the Novel in Thailand. Bangkok: Thai Watana Panich,
1975.
WYATT,
David K. Studies in Thai History. Bangkok: Silkworm, 1994.
Tiago, muito obrigado pelo texto! Jamais teria acesso a informações sobre a literatura na Tailândia se dependesse da sorte de encontrar um motivo para ir atrás. Foi uma surpressa muito feliz encontrar seu texto aqui!
ResponderExcluirGostaria de levantar uma questão que, talvez, toca mais marginalmente com os pontos levantados em seu texto, mas que me deixo com muita curiosidade.
Achei especialmente interessante a forma como esse leitor (sujeito) burguês surge no país e como isso esta diretamente ligado ao próprio surgimento do romance na cultura eurocêntrica. Nesse sentido, como você aponta, é uma "auto-colonização" feita nos moldes de uma nova lógica de dominação emulada do sistema-mundo eurocêntrico.
Nessa lógica, o conceito de literatura na Tailândia pré maior contato com a Europa dizia respeito ao que exatamente? Aos épicos e sua lógica de mitos fundadores? Se for esse o caso, esse épicos eram registrados e distribuidos em formatos semelhantes a algo que possa ser identificado como mídia de leitura? Isto é, o registro deles eram só como registros históricos ou eram feitos com o intuito de serem lidos pela aristocracia de então? As questões surgem de uma leitura mais ampla do conceito de literatura e da curiosidade de saber como a produção verbal da arte na Tailândia se deu. Quero dizer, os romances são marcadamente um gênero de arte verbal criado por e para uma classe burguesa que buscava meios de se expressar em oposição à pompa e exclusividade aristocrática. O que queria realmente saber é em quantas andava a produção de arte verbal pelo grosso da população da Tailândia. Essa população conhecia esses épicos aristocráticos, eram mitos fundadores? A música ou a literatura oral estavam presente nessas camadas mais populares da Tailândia?
Peço desculpas pela quantidade de pergutnas, mas o texto realmente me apresentou um mundo de possibilidades para pensar a literatura tailandesa e não queria perder a chance de te perguntar.
muito obrigado!
Felipe Chaves Gonçalves Pinto
Oi, Felipe.
ExcluirBom, a literatura tailandesa era dominada pela poesia até o século XIX, quando foi lentamente suplantada pela prosa. Havia vários tipos de poesia e não dá para entrar em detalhes sobre cada gênero, mas o que elas costumavam ter em comum era o fato de serem cantadas/declamadas em apresentações artísticas onde o povo se reunia para apreciar. Os autores dos poemas eram, em sua maioria, aristocratas, muitos da própria família real. Não eram estórias de mitos fundadores, mas de grandes heróis realizando feitos homéricos, no mesmo estilo presente em obras gregas como A Ilíada e A Odisseia. Tais apresentações eram bastante populares, pois como quase ninguém sabia ler, era através delas que o pública conhecia as grandes narrativas épicas dos heróis siameses. Esses épicos eram escritos em papel através de diferentes sistemas, sendo o Samud Thai (สมุดข่อย) o mais popular. O Samud Thai constituía-se num conjunto de manuscritos que era "encadernado" como um livro mesmo. Há vários deles em museus aqui na Tailândia, mas eles foram comuns em todo sudeste da Ásia.
Entretanto, as camadas populares comumente não tinha acesso aos Samud Thai, somente às apresentações orais de artistas. Essas apresentações poderiam ser realizadas através de peças com atores, ou poderiam apenas ser recitações de músicos ("trovadores"), algo chamado de sepha (เสภา) em tailandês. Não havia, portanto, uma separação clara entre música e poesia épica. Acredita-se que algumas dessas obras tenham sido compostas por vários autores diferentes, inclusive populares, mas os temas eram geralmente aristocráticos.
Portanto, o povo comum tinha acesso a essas obras através das apresentações artísticas feitas por artistas, mas o universo da maioria dessas obras era aristocrático ou religioso (caso do Ramakhiem). Os heróis, em geral, ou eram nobres ou pessoas à serviço da nobreza.
Aqui vai um link de um rapaz fazendo Sepha num podcast, pra você ver como o povo assistia aos poemas épicos no passado: (https://www.youtube.com/watch?v=5Tf9lkRgFYQ)